Pela primeira vez notei o quão limitado era meu quarto, meus móveis mal posicionados, minhas roupas abarrotadas e como tudo cheirava a um odor particular de perfume doce e roupa limpa: meu cheiro. Olhei novamente pra tudo aquilo, notando as cores dos tecidos, imaginando combinações possíveis, permitindo que o perfume tomasse conta do ambiente e rapidamente pude perceber que todos aqueles objetos, aquele cheiro, aquela particularidade, tudo aquilo que inundava meus sentidos, era também um pedaço de mim. Inesperadamente, ao contrário do que se pudesse imaginar, deitado na cama, com meu short cinza e minha camisa branca, me senti um intruso. Em meio aquele mundo de objetos característicos, partes do cotidiano, olhei para dentro de mim mesmo e percebi então que não me reconhecia em nenhum daqueles objetos. E foi assim que aconteceu, tão tardio quanto seria possível supor: eu me perdi de mim mesmo.
Ricardo Coleoni