É sempre um redemoinho
Eu sinceramente penso em desistir, algumas vezes
Meu estomago corrói a si mesmo
Minhas mãos contornam os seus dedos
As minhas olheiras, as minhas manchas, as minhas dores
Queria ter a coragem de me deixar de mim
Porque de repente tudo chega ao fim
O cinza ainda mais cinza
A vida ainda sem vida
Queria não mais querer
Queria não sonhar com o calor que não está
Com a mão que não se dá
O coração faz do resto um só soar
No fundo da alma que mora, que morre
Queria não desejar, que meu destino se conheça
Que a solidão se encerre
Não desejar quebrar
Mas ainda, mais do que tudo
Queria matar.
De amor essa maldita vida.
Maldita vida.
Ricardo Coleoni
Insônia. Já era muito tarde, madrugada daquilo que antes fora um dia cinzento e chuvoso. Meus dedos roçavam um no outro, como quem tateia papéis invisíveis, buscando transferir para aqueles objetos imaginários a euforia que tomava conta do meu peito.
Pela primeira vez notei o quão limitado era meu quarto, meus móveis mal posicionados, minhas roupas abarrotadas e como tudo cheirava a um odor particular de perfume doce e roupa limpa: meu cheiro. Olhei novamente pra tudo aquilo, notando as cores dos tecidos, imaginando combinações possíveis, permitindo que o perfume tomasse conta do ambiente e rapidamente pude perceber que todos aqueles objetos, aquele cheiro, aquela particularidade, tudo aquilo que inundava meus sentidos, era também um pedaço de mim. Inesperadamente, ao contrário do que se pudesse imaginar, deitado na cama, com meu short cinza e minha camisa branca, me senti um intruso. Em meio aquele mundo de objetos característicos, partes do cotidiano, olhei para dentro de mim mesmo e percebi então que não me reconhecia em nenhum daqueles objetos. E foi assim que aconteceu, tão tardio quanto seria possível supor: eu me perdi de mim mesmo.
Ricardo Coleoni
Senti a vontade da poesia
O vazio tão característico
A cabeça tencionando, baixa
O olhar cortado, e dói
Vivi o dia como se pudesse
Sorri pra vida como se disesse:
Abre os braços, não chora não
Que o amor ainda apetece
Cansei, cansei e cansei
Quis deitar dentro de mim
Fechar os olhos, cegar
Cair, morrer, deitar
Só mesmo sei da vida o que ela grita
Fraca, besta, puta!
Montando meu peito de cor
Caindo fraco no chão
Sem fé nas pazes
Sem fé no coração
Só mesmo essa vontade
De deitar na imensidãoRicardo Coleoni
.
ricardo diz:
*Eu tento só seguir, e não pensar se as pessoas valem alguma coisa, não analisar... Pra não chegar a conclusões ruins...
*Mas se eu tivesse que dar um palpite sobre o meu futuro
*Eu diria que vou ser uma pessoa bem sozinha
*Pra sempre
*Que vou esbarrar nas pessoas
*Ser marcado por algumas, marcar outras
*Mas não ocupar nenhum espaço de verdade*Até um dia ir embora... Esperando que exista algum lugar ao qual eu pertença.
Quem sabe
No alto da torre
Ainda haja um lar, um lugar
Onde meu coração possa estar
Onde, mesmo visíveis
Meus sonhos possuam cores
E mesmo cansados
Sonhem também seus sonhos
Quem sabe
Em algum lugar, no ar
Meus amores voem, alto o bastante
Pra se deixarem tocar
Onde, a chuva que cai
Chova de olhos que brilham
Donos de um rosto que ria
E brilhe em mim sua alegria
Quem sabe estrelas sejam anjos
Voando através dos anos
Por vezes só esperando
A chance de se mostrar
Onde a vida conte uma história
Encharcada de voz e de cor
Sentada sob uma nuvem
Tomada de despertar
Ricardo Coleoni
Às vezes, parece que alguém pegou uma faca
Pontuda e cega e cortou um vale de 12 centímetros
Atravessando minha almaBruce Springsteen
Ainda que o teu perfume
Preenchesse meu peito
Que tua boca, macia
Sugasse meu ar
Mesmo que eu pintasse a minha mente
Desenhasse no que ainda lembro de ti
No teu contorno, e no teu peito
Um coração
A verdade ainda existiria
Mesmo que eu fingisse que não sabia
Que eu mentisse pra mim mesmo
Das aberturas na tua boca
Da cadencia da tua voz
Ainda que eu acreditasse
Na simpatia dos movimentos
E que a verdade e a vida
Conviviam em harmonia
A verdade não se calaria
De tudo o que vivemos
O que eu ainda lembro
A musica no rádio
E o gosto do teu corpoRicardo Coleoni
Pontas dos dedos e do nariz
Mera menção, irreal
Na profundidade do frio
Na intensidade do ar
Passantes nas ruas, cores e olhares
Impossíveis de acompanhar
Tão rápido são seus passos
Que mal sabem onde vão
Vejo o rosto, que também me vê
O frio sobe a espinha
Pés que já andam, independentes
Correm rápidos como a batida do meu coração
O caminho torna-se incerto
Os rostos tornam-se riscos
Os músculos pulam, ao atrito de outros
Fecha os olhos! Deus, faz passar!
E não passa
E eles passam
A saliva prende à garganta
O estomago dá-se um nó
E os passos se pegam confusos
Incertos até de um e outro
Passa a mão na cabeça
Cerra os olhos
Finge que nada é real
Finge que dorme
Se pega olhando pro fundo
No tenro abismo do mundo
Onde a calma se faz verdade
Cortando do medo os pulsosRicardo Coleoni
Em trapos
Dobrando minhas colchas,
Minhas coisas, minhas forças
Repletas de ti
Riscando
Minhas fotos, meus sorrisos
Nos seus rostos, nos seus gostos
De emoções passageiras
Mal sabe o vento
Das sementes que leva
E me eleva, me completa
Por um segundo
Mal sabe a areia
Que doma meu sono,
Meus sonhos, meus olhos
No esquecimento
Amando aos pedaços
Partindo os abraços
Soltando-se as mãos
Curvando a cabeça
Relendo das cartas
Sentado no chão
Cansado, cego, surdo
Olhando pra vida
A rua vazia
Ninguém no portão.
Ricardo Coleoni
Vista embaçada.
Feixes de luz amarela, janela a dentro
Queimam meus olhos, meu porto
Numa brancura paralizante
Refletem meu peito
Meu gosto, minha alma
Cortando limites
Que eu mesmo impus
Raios de luz... Lindos
Beleza que chora
Lágrimas de desfeixos
Numa tristeza calada
Pudera a incerteza da vida
Cheia de luzes que confortam
Mãos que não se tocam
Sonhos que não se vive
Numa vida inventada dentro
Outra pintada fora
Perdendo-se nas próprias mentiras
Oca. Vazia. Na essência.
De luzes bobas
Brilhando meus olhos
Nos meus reflexos uma verdade
Sem razão para mostrar-se
Deita, filho
Que a luz te queima, resgata
Mostra a verdade, que vive em ti
E que a própria vida mata e apaga. Ricardo Coleoni
Em ruas e calçadas
Em passos e gargalhadas
Dias e madrugadas
Nada
Sutil olhar de frente
Piadas condescendentes
Boca curva a se abrir contente
Nada
Silêncio
Quando as palavras perdem o senso
Perder razão é questão de tempo
Me vejo prezo nos meios
E nada
Faço tudo, busco intenso
Corro contra o tempo
Agrado e desagrado
Na intensão de me encontrar
Nada é aquilo que tenho
Nada é aquilo que rezo
E ainda aquilo que peço
Insiste em dizer-me nada.Ricardo Coleoni
Deus, pintando o céu
De muitas cores poe seu véu, noite a dentro
E corações tinge, ao anoitecer
Lembrando o tempo, tão próspero
E à tua memória, o que atenta?
Aquela nuvem mais densa
Travestindo estrelas e desejos
Crivando o peito dos que esperam
Ainda coberta de nada, a rainha resiste
Enluarada e tão só
Enchergando destinos nos meus olhos
Pintando história no meu vazio
Tão louco em sua paixão
Vive e sonha, pela tela
Pensa em suas irmãs, a dormir
Cobertas num manto de tinta
E nos trilhos da estação
A criança senta e sonha
E canta e chora
Parada à porta de uma era
E ainda hoje
Olha pro céu
Tentando enchergar estrelas
Há muito envoltas em seu véu
Olha os trilhos, enferrujados
Dispensam palavras, arrancam suspiros
E pra onde foram, seus caminhos?
E os meus?
Colorindo o tempo, que não é um
Nunca no mesmo tom, o homem ainda,
Por vezes cobre, por vezes pinta
Cores nos meus caminhos, cores na minha vida. Ricardo Coleoni
Cheia de palavras, minha boca
Correndo como um rio
Mas os caminhos estão fechados
Não há espaço pro desabafo
Para até a própria mente
Sentindo toques e sonhos
Evitando o sabor dos versos
Até mesmo em pensamento
Sorrisos esparsos
Rindo da própria vida
Achando graça do ar que corre
Achando graça da dor que sente
A luz na mão dada, brilha
Dividindo com ele
Segredos do tempo,
Notícias da alma.
Juntos passeiam no infinito
Escrevendo histórias no som do vento
Olhando a vida acontecer
Dentro de si e dentro de outros
Às vezes, também escreve pra si. Baixinho.
Sonhos nos quais não crê
Mas que ainda assim, se pega rindo
Imaginando que podem ser. Reais.
Ricardo Coleoni